Aurélio Valporto: a alta dos juros e o neocolonialismo

A recente alta dos juros tem o condão de reduzir a velocidade de circulação do agregado monetário, ou seja, de reduzir a demanda, em especial a demanda provocada por investimentos, uma vez que o consumo, nessa época de pandemia e recessão, já está por demais freado.

Ou seja, à primeira vista é uma estupidez, subir os juros para frear a demanda já que a inflação que estamos presenciando é de custos, aumento de custos generalizado causado, primordialmente, pela desvalorização do Real que encareceu as nossas indispensáveis importações. 

Esse é o preço da desindustrialização que vitima o Brasil desde a era Collor, levada às últimas consequências na era Lula e nada tem sido feito para reverter o quadro na administração atual.

A alta dos juros e o neocolonialismo

Juros

 O Brasil precisa importar elaborados, especialmente aqueles provenientes da indústria de transformação, para que sua economia funcione. Com a desvalorização cambial esses elaborados importados têm seu preço aumentado, o que pressiona a inflação, por conta do aumento dos custos dos agentes que fazem uso dos importados, essenciais na cadeia produtiva brasileira. 

 Em um quadro de recessão conjugada inflação de custos, aumentar os juros, em uma economia fechada (aquela que não transaciona com o exterior) seria não só um atestado de indigência intelectual dos responsáveis pela política monetária, mas também um suicídio econômico, uma vez que a escalada dos juros não só tem o condão de reduzir a já debilitada demanda de um quadro recessivo, como aumenta ainda mais os custos da economia, os custos financeiros, colocando mais lenha na inflação.

Economia

Entretanto, não vivemos em uma economia fechada, precisamos importar do resto do mundo e para isso precisamos de divisas, que entram no país como fruto das exportações ou do influxo de capitais autônomos. Desta forma, embora o aumento dos juros tenha o condão de reduzir a demanda, também tem o condão de atrair capitais autônomos, notadamente o “capital de motel” externo (aquele que vem, não para investir na cadeia produtiva do país, mas apenas para explorar uma conjuntura financeira) para a ciranda financeira nacional, levando a uma valorização do Real e, consequentemente, barateando os industrializados importados, tão necessários para a economia nacional. Nesse ponto cabe ressaltar que o setor terciário, o de serviços (incluindo o comércio – que é, na verdade, um serviço de distribuição) maior setor da economia, é altamente elástico em relação à satisfação econômica dos dois primeiros setores.  Especialmente os serviços de baixo valor agregado e de baixo investimento, como manicure, cabeleireiro, restaurantes, serviços relacionados ao turismo etc.  Afinal, esses serviços somente encontram demanda robusta quando as necessidades primárias e secundárias estão satisfeitas. Pouca gente vai ao bar tomar uma cerveja se não tem o que comer em casa, pouca gente faz turismo se não tem geladeira ou mesmo TV em casa. Estes bens industrializados que, ou são importados prontos ou dependem de insumos industrializados importados para serem produzidos, são prioridade na vida das pessoas. Mas uma vez satisfeitas as necessidades primárias e secundárias, os serviços começam a ser demandados de forma mais robusta, inflando o setor e renda do país.

  Dessarte, a pergunta que fica é: será esse aumento dos juros suficiente para atrair “capital de motel” em volume capaz de valorizar o Real e baratear as importações, reduzindo a pressão de custos e, ao mesmo tempo, insuficiente para frear a demanda interna, coisa que ninguém quer em um quadro recessivo? Ê uma aposta delicada e que somente o tempo responderá.

  A única certeza que temos é de que as barbeiragens econômicas do passado, e que continuam sendo cometidas, nos levaram a esta “sinuca de bico”. Tiraram a capacidade de o país ter um crescimento autossustentado, capacidade esta que somente será readquirida com a reindustrialização. Mas nada tem sido feito a este respeito, pelo contrário, podemos dizer que este governo não tem política industrial e nem cria um ambiente econômico estável e previsível, indispensável para os investimentos de longo prazo de maturação e intensivos em tecnologia e capital, típicos da indústria de transformação.  Parece que estão satisfeitos em deixar o Brasil como neo-colônia do século XXI, trocando primários por elaborados do resto do mundo.

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