Menor incerteza, uma boa notícia

Matheus Jaconeli é economista e escreve neste espaço regularmente

Após um período de grande incerteza global, os agentes econômicos começam a experimentar um cenário de maior calmaria e, de certo modo, de esperanças renovadas após um ano de muitos desafios do ponto de vista social, econômico e sanitário. Segundo o World Uncertainty Index (Índice Mundial de Incerteza) elaborado pelos economistas Hites Ahir, Davide Furceri, ambos FMI, e Nicholas Blomm, professor de Stanford, o nível de incerteza da economia global diminuiu fortemente entre o quarto trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2021, saindo de 22.319,62 pontos para 11.889, uma queda de quase 47% de um período para o outro.

Os movimentos do índice:

O índice sempre evidencia picos em momentos de crises ou eventos que podem ocasionar uma. No gráfico abai abaixo é possível ver momentos importantes em que houve grade salto na incerteza ocasionado por eventos políticos, econômicos, epidemias locais e globais.

Menor incerteza, uma boa notícia.

Conforme podemos ver no gráfico acima, em vários momentos da história a incerteza aumenta e o pico sempre é atingido no estopim do evento, tendo arrefecimento ao passo em que a situação começa a se resolver e os agentes econômicos passam a enxergar possíveis soluções para o problema. O último pico foi o mais elevado, haja vista que a economia global passou por uma crise que afetou tanto a oferta, impedindo processos logísticos, distribuição, fornecimento de insumos, e pelo lado da demanda, devido ao efeito da queda na renda. No caso dos países em situação fiscal mais frágil, adicionalmente, houve o aumento de risco por conta da fragilidade das contas públicas.

A queda do índice se dá principalmente após a solução ou após as expectativas dos agentes econômicos melhorarem. Utilizando o momento atual como exemplo, o problema da COVID-19 não foi totalmente solucionado e mesmo, antes do primeiro trimestre desse ano, como é possível ver no gráfico, as incertezas já começavam a perder força segundo o indicador. Isso acontece, pois as perspectivas em torno da vacinação e o resultado das medidas de distanciamento, pelo lado sanitário, e a rodada de estímulos fiscais e monetários, pelo lado econômico, melhoraram melhorando as projeções para a economia global. É verdade que os países subdesenvolvidos como Argentina, Brasil, Índia acabam tendo maior risco em relação aos demais, mas com a situação em processo de melhora nos países desenvolvidos, puxando a economia global, os países em desenvolvimento, mesmo com suas fragilidades, acabam sendo positivamente impactados. É claro que vale a pena considerar as particularidades de cada país como é o caso da Índia com seu sistema público de saúde precário, o Brasil e a Argentina com seus problemas de política interna e fragilidade fiscal.

Mercado financeiro:

A incerteza também é um aspecto muito importante não apenas para governos tomarem medidas de políticas públicas e econômicas, no mundo das finanças essa variável influencia as decisões de gestores de fundos, diretores financeiros, analistas e especialistas de investimentos, investidores profissionais, entre outros agentes participantes do mercado financeiro. Aqui vale distinguir risco de incerteza, pois a incerteza está relacionada está relacionada a falta de conhecimento, impossibilidade de prever algo, o que dificulta muito a visão do agente em sua tomada de decisão. No caso do risco, existe a possiblidade de coletar informações disponíveis, para enxergar o quanto determinado evento pode afetar algo e, no caso do mercado financeiro, a aplicação em uma categoria de investimentos, ou seja, o risco dá “chances” para o quem vai tomar a decisão escolher outras alternativas para dado as informações disponíveis que ele tem.

No caso da incerteza, não há o leque de informações disponíveis, de modo que métodos estatísticos como é usado no caso do risco usando medidas de sensibilidade de um ativo em relação a outra variável ou ao seu benchmark não tenham eficiência, valendo mais à pena acreditar na intuição ou heurística, isto é, processos cognitivos, muitas vezes simples e distantes de métodos tradicionais para a resolução de problemas onde a quantidade de informações é escassa. Como vimos, anteriormente, a crise gerada pela COVID-19 foi algo novo, os governantes, economistas, infectologistas, financistas, médicos e a sociedade em geral não sabia como lidar, é uma nova doença trazendo consequências como nenhuma outra causara na história recente, mas como é possível visualizar no gráfico, ao passo em que as pessoas passaram a ter maiores informações em relação ao problema, o nível de incerteza começou a cair, tanto que nesse momento os mercados financeiros voltaram a subir devido à queda na incerteza que fazia os investidores migrarem para ativos mais seguros.

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Macroeconomia:

As incertezas também afetam a economia como um todo, pois os agentes econômicos como famílias, empresas e o governo passam a ter receio em tomar decisões e, até mesmo, deixam de tomar decisões que seriam benéficas à economia. No gráfico abaixo, retirado do artigo “Global uncertainty is rising, and that is a bad omen for growth”, A incerteza global está aumentando, e isso é um mal presságio para crescimento (traduzido para o português) publicado em 2018 escrito pelos economistas que trabalham na construção do índice, fica evidente que a incerteza tem um impacto positivo no crescimento econômico:

Menor incerteza, uma boa notícia.

O gráfico mostra que choques de incerteza geram impactos negativos na produção econômica global.

A lógica por trás disso pode ser evidenciada pelos componentes da demanda agregada e da oferta. Começando pelo lado da demanda, a macroeconomia diz que a produção cresce de acordo com o consumo das famílias, gastos governamentais, investimento privado e exportações líquidas (exportação menos importação). Um nível muito elevado de incerteza faz com que as famílias que possuem renda disponível ou que não perderam seus empregos devido à crise gerada por esse choque apenas poupará devido aos receios de perder o emprego, diminuição do poder de compra fazendo com que prefiram investir o dinheiro para mantê-lo, etc. Os investimentos do setor privado, responsáveis por parte das inovações e aumento de produtividade da economia também acaba sendo adiado, pois os empresários enxergam maior risco para fazer seus projetos e como os potenciais consumidores estão cautelosos, muitas vezes o retorno não compensa. No caso das exportações, quando o choque de incerteza é global, os países passam a importar menos de seus parceiros e estes passam comprar menos também, o que acaba por diminuir o saldo da balança comercial, pois há queda nas duas variáveis.

O governo acaba gerando dois efeitos. Por vezes, o Estado aumenta seus gastos com o objetivo de compensar parcialmente essas perdas com políticas de transferência de renda ou investimentos públicos, mas a interferência do governo, que pode ajudar no curto prazo, pode gerar efeitos colaterais, como observou o Prêmio Nobel de Economia, James M. Buchanan (1919-2013), o aumento de gastos em uma geração pode ocasionar prejuízos para as contas públicas das gerações futuras, implicando em maior carga tributária, diminuição da renda disponível e, consequentemente, menor padrão de vida para a geração seguinte. Sem pensar em um prazo tão longo, temos a chamada “Equivalência Ricardiana” ou “Equivalência Ricardo-Barro”, um conceito desenvolvido inicialmente por David Ricardo, economista e político britânica do século XIX e revisto pelo economista americano Robert Barro. O conceito implica que os agentes econômicos possuem função consumo intertemporal e, no caso das famílias, os gastos governamentais implicam em uma aumento na carga tributária a posteriori, o que as famílias interiorizam e evitam gastar no presente para responder à possível perda de renda futura gerada pela tributação. Assim, por mais que os gastos estatais sejam positivos no curto prazo, eles podem gerar um efeito negativo no futuro.

Pelo lado da oferta, isto é, da produção de bens e serviços as incertezas ocorrem pelos motivos que faz o investimento privado diminuir. A oferta se baseia em uma função de produção que relaciona capital, trabalho e, em modelos como o dos economistas Evsey Domar (1914 – 1997) e Roy Harrod (1910 – 1978), tecnologia. Logo, para investir em capital, que são máquinas, equipamentos, planta produtiva; investir em tecnologia, inovação em produtos e processos produtivos; e contratar pessoas os ofertantes precisam de informações para saberem se vale a pena ou não começar esses processos com o objetivo de ampliar a produção e gerar lucros. Como a incerteza não fornece informação, os produtores ficam receosos em fazê-lo.

Após a incerteza.

Apesar de não saber quando ela chega, dá para saber quando ela diminui. Conforme os agentes vão aprendendo com a situação, comparando com outros períodos, para saber quais medidas podem ser tomadas sem gerar tantos custos e gerando novas soluções, as informações e, consequentemente, as soluções em relação aos problemas vão aparecendo, fazendo com que incerteza diminua, gerando um cenário mais limpo para que os indivíduos voltem a tomar suas decisões. Por isso é importante sempre estar atento ao que está acontecendo nesses períodos, no caso do mundo dos investimentos, vale a pena estar atento ao que os economistas, investidores profissionais, financistas estão encontrado se solução para o tema em questão aliado com informações das pessoas que têm intimidade com o problema, se uma pandemia, médicos e infectologistas, se um desastres naturais, geólogos e físicos. Tais precauções acabam sendo uma medida de segurança para tais momentos, apesar de, pelo menos no início, não haver certeza.

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