Em setembro, alguns fundos DI fecharam no vermelho, o que assustou os investidores mais conservadores.

Segundo o Globo, este mês ainda há papéis com perdas. Por trás desse desempenho negativo na renda fixa, dizem especialistas, está a combinação de dois fatores: o receio com o quadro fiscal do Brasil e uma emissão maior de papéis do Tesouro Selic pelo Tesouro Nacional.

Os fundos DI são aqueles de renda fixa que devem investir majoritariamente em títulos públicos atrelados à Selic, a taxa básica de juros do Banco Central, atualmente em 2%.

Investimentos

XP

De acordo com levantamento da XP Investimentos com 25 fundos classificados como Renda Fixa Simples, com mais de 50 cotistas e patrimônio acima de R$ 50 milhões, 14 terminaram setembro com rentabilidade negativa. Até 19 de outubro, três ainda estavam nessa situação.

No início de setembro, o Tesouro fez um megaleilão de títulos públicos, aumentando a quantidade de papéis da dívida do governo no mercado. Camilla Dolle, analista de renda fixa da XP, diz que houve excesso de oferta para uma baixa demanda, o que contribuiu para as perdas.

“Em setembro, o leilão de R$ 46 bilhões de títulos do Tesouro pegou o mercado de surpresa. Os investidores viram que o Brasil estava precisando de mais financiamento do que o esperado, então o risco aumentou. Só que os juros seguem muito baixos, então a relação entre risco e retorno fica comprometida”, diz Camilla.

Spiti

Segundo Guilherme Cadonhotto, especialista em renda fixa da casa de análise Spiti, o governo precisou pedir mais financiamento por conta dos altos gastos na pandemia, aumentando a quantidade de títulos no mercado:

“O volume de emissões de Tesouro Selic no segundo trimestre foi quase quatro vezes superior ao de janeiro a março. Com a pandemia, a arrecadação caiu enquanto os gastos subiram. Para custear a conta, foi necessário emitir mais títulos. Como a demanda não correspondeu à oferta, houve queda no rendimento das aplicações atreladas à Selic.”

Susto motivou saques

O resultado negativo nos fundos mais conservadores também afetou o patrimônio dos investimentos atrelados aos títulos públicos.

Em setembro, os fundos Renda Fixa Simples detinham R$ 44,7 bilhões. Já em 16 de outubro, estavam em R$ 42,6 bilhões, um recuo de 4,69%, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

“Os debates sobre o custeio de programas sociais e o possível não cumprimento do teto de gastos também contribuíram para aumentar a percepção de risco no país. Os investidores avaliaram que o retorno de 2% ao ano (patamar atual da Selic) não compensava o risco-Brasil”, diz Nelson Muscari, coordenador de fundos da Guide Investimentos, para quem o movimento de setembro foi atípico.

IMA

Em setembro, o IMA-S (índice de mercado formado por títulos públicos atrelados à Selic, também da Anbima) fechou em queda de 0,27%. Isso não ocorria desde maio de 2002, quando o indicador teve perdas de 0,42%.

“Quando parte dos investidores viu os fundos com rendimento negativo, houve uma série de saques das aplicações. Além dos papéis emitidos nos últimos meses, ainda houve aumento na oferta, com as vendas dos títulos mais antigos após resgates nos fundos. Foi uma tempestade perfeita”, sublinha Muscari.

Espere a crise passar

Ao se desfazer dos títulos em um momento de estresse no mercado, o investidor acaba tendo perdas em seus investimentos. Especialistas desaconselham fazer isso. A não ser em caso de necessidade, a recomendação é que os investimentos sejam mantidos, a fim de recuperar o que foi perdido.

Samuel Oliveira, responsável pela análise de fundos da XP, faz um paralelo com o mercado de ações: após as perdas, depois de um tempo geralmente vem a recuperação.

“Por exemplo, a pessoa comprou uma casa por R$ 500 mil, daí veio a crise e ela quis vender. Os compradores só querem pagar menos. Naquele período, o bem está valendo menos, mas se o dono não se desfizer dele, não terá perdas. A mesma lógica vale para os investimentos. Se o fundo rendeu negativo, não significa que a perda foi cristalizada. O saldo ficou menor, mas isso não é irreversível”, ressalta Oliveira.

Passado o susto

Passado o susto, o mercado dos fundos DI começa a voltar à normalidade. Até 19 de outubro, o retorno do IMA-S estava positivo em 0,1%. E os 25 fundos compilados pela XP têm leve ganho de 0,06% no período, contra perda de 0,05% em setembro.

Contribuiu para isso a decisão do Tesouro Nacional de emitir Letras Financeiras do Tesouro (LFT, o Tesouro Selic) com vencimento em 2022, deixando de ofertar papéis para 2023.

Em comunicado, o Tesouro explicou que as alterações estavam “alinhadas com as medidas adotadas pelo Banco Central para o gerenciamento da liquidez em função da conjuntura econômica”.

“O Tesouro percebeu que não houve muita demanda, e agora as emissões do Tesouro Selic estão mais próximas àquelas do primeiro trimestre. Além disso, também passou a emitir títulos com vencimentos mais curtos, o que contribui para o movimento de recuperação”, acrescenta Cadonhotto, da Spiti.

Menor exposição

Com títulos de prazo mais curto, o tempo que o investidor fica exposto aos possíveis riscos do Brasil, especialmente fiscais, diminui, o que contribui para o movimento de recuperação das perdas.

Mesmo com uma oscilação atípica, os fundos DI ainda são uma das principais recomendações dos especialistas em finanças para se montar uma reserva de emergência.

“Essa perda foi algo inédito, desde 2002 não víamos fundos pós-fixados fechando o mês no negativo. Continuamos recomendando fundos atrelados ao Tesouro Selic. Embora eles tenham oscilado, dentro do mercado brasileiro representam um dos investimentos mais seguros possíveis”, diz Oliveira.

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