A eleição de Joe Biden (contra Trump) precisa ser melhor analisada do ponto de vista político e o investidor tem muito a aprender com o episódio. Assim como no Brasil, nos EUA ocorreu uma polarização, dividindo o país entre esquerda e direita, ou seja, democratas e republicanos.

Porém, neste caso, já temos a primeira diferença. Ao contrário do Brasil, nos Estados Unidos não existe uma esquerda raiz, até mesmo com resquícios de socialismo. O que existe nos EUA é um governo mais nacionalista e mais focado no mercado e na defesa da economia americana frente a outros países e o governo um pouco mais populista e permissivo, por exemplo, em relação aos imigrantes e questões ligadas à orientação sexual, por exemplo.

Porém, no fim das contas, ambos os lados entendem que, para serem reeleitos, precisarão fazer a economia andar, além de não cometer deslizes. Foi justamente nos detalhes que Donald Trump perdeu uma eleição ganha.

Fabrízio Gueratto: ‘Por que Trump não se reelegeu e o que o investidor precisa aprender’

O jeito Trump de ser

Apesar do seu jeito extremamente duro, diferente de outros presidentes americanos, em seu governo não houve guerra. Até mesmo o chefe do poder da Coreia do Norte, que é reeleito até o último dia de sua vida, cedeu à pressão do apresentador de O Aprendiz.

Do ponto de vista econômico, seu governo foi um sucesso, fazendo o S&P 500 bater diversos recordes e se recuperar com força ainda no meio da pandemia do novo coronavírus.

Trump tinha tudo para continuar sendo presidente

Até o começo de 2020, Trump estava reeleito. Seria campeão sem nem sequer entrar em campo. Porém, uma vez ouvi que, aquele que não conhece os limites para o poder, termina por destruir-se. E foi assim na eleição americana. Nos últimos 100 anos, somente dois presidentes dos EUA não haviam conseguido se reeleger.

O que deu errado com a reeleição de Trump?

Durante a crise do novo coronavírus, Trump continuou achando que uma grande parada da economia, com milhões perdendo os seus empregos, poderia impactar negativamente a sua reeleição. E ele estava parcialmente correto.

Porém, em um cenário de guerra, é preciso tomar as decisões que menos causam estragos e, neste caso, seria reconhecer o problema sério que uma pandemia poderia trazer, como trouxe, matando quase 250 mil americanos. Quando entendeu o real tamanho do problema e que havia tomado decisões equivocadas, resolveu deixar a responsabilidade com os estados. Tarde demais.

Uma economia em plena aceleração, com redução de impostos inclusive, algo extremamente populista, sofreu um revés quando famílias começaram a perder seus parentes. E na era das redes sociais, as pessoas tem uma voz maior em sua revolta. Neste momento, Trump começava a perder uma eleição que já estava ganha.

O segundo ato de Trump

Em quase todos os lugares do mundo existe racismo. Isso é inegável. Porém, nos Estados Unidos este é um problema mais sério que em outros lugares. Uma prova disso é que lá, por exemplo, no lugar mais democrático, que é uma igreja, em muitas localidades, negros e brancos não se misturam. No meio da pandemia, uma morte estúpida de um negro, com um policial branco sufocando-o propositadamente, incendiou o país.

Um líder, que já tem um problema sério para resolver com a questão do coronavírus e seus impactos na saúde e na economia, precisa apaziguar qualquer novo problema que surja. Apostando forte no eleitorado conservador, majoritariamente branco, focou o seu discurso nas pessoas do protesto que estavam destruindo o patrimônio público e colocando fogo em viaturas. Para piorar, chegou a dizer que mais brancos morriam por violência policial do que negros.

Em todas as revoltas, em todas as partes do mundo, existem aqueles que querem o caos. Não deveria ser normal, mas é comum. Porém, o foco deveria ser a questão da violência policial.

O que o investidor precisa aprender

Imagina que uma pessoa fale que o Lula é um político muito popular. Imagina que outra pessoa fale que o Bolsonaro é um político popular. Se uma dessas afirmações lhe causa indignação, é porque sua capacidade de análise está comprometida, em razão da sua preferência política, e isso vale para os investimentos também.

Independentemente de gostar ou não do Lula ou do Bolsonaro, ambos são os políticos mais populares da história recente do país e ponto final. É um fato concreto. No caso da eleição americana, Trump, apesar do que acreditava, precisava entender os sinais das ruas tanto quanto ao coronavírus como na crise racista.

Em um país em que 75% dos eleitores são fiéis aos democratas ou aos republicanos, a eleição é decidida nos detalhes. Donald Trump, um presidente que não fez guerra, reduziu impostos, fez a economia americana voar e defendeu os interesses americanos como ninguém frente a outros países, perdeu nos 45 do segundo tempo uma eleição que estava ganha. Aquele que não conhece os limites para o poder, termina por destruir-se.

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