Driblando adversidades e farejando tendências; a estratégia do Bracco

Fundo da gestora Galápagos driblou drawdown e tem retorno positivo na contramão dos fundos multimercado

Poderíamos começar esta matéria afirmando que o grande anseio de quem busca o mercado financeiro para rentabilizar seus recursos é acertar na combinação dos ativos que compõe uma carteira, mas isso não seria uma grande novidade, afinal, que investidor não busca isso?

Talvez o pulo do gato seja acertar esta combinação em momentos de grande incerteza e volatilidade, visto que o ser humano, por instinto, tenta se proteger em situações de risco. No mercado financeiro não é diferente. Em uma situação de crise tal como a que vivemos no início COVID-19, com ativos perdendo tanto valor de mercado, tende a ser mais difícil manter a frieza e seguir com as convicções fundamentalistas.

Por isso, o Cara a Cara com o Gestor da última quarta-feira, convidou os gestores Ubiraja Silva e Fábio Guarda, gestores do Bracco FIM, fundo sistemático da Galápagos que driblou o drawdown da bolsa de 40% de março de 2020 e hoje acumula 30,60% (desde o início), num momento cuja tendência de mercado segue na contramão de fundos multimercado.

Fábio Guarda, com sua expertise nos books de Renda Fixa e Câmbio, e Ubirajara Silva, o “Bira”, nos de Renda Variável, já haviam trabalhado juntos no Unibanco. Em 2017 inicialmente se reuniram para gerir recursos próprios e assim perceberam dores comuns aos dois books:

” Alocávamos capital por mais tempo que o necessário com mais recursos que o necessário em trades que não eram ganhadores. Ao mesmo tempo cortávamos ganhos muito rapidamente de trades vencedores. Foi aí que começamos a explorar esse comportamento. Qualquer pessoa que já tenha operado ação e a ação cai 2, 3 % vai falar ‘vou esperar chegar no meu preço pra sair’ ou ‘vou comprar mais para fazer preço médio e sair com lucro melhor’, e isso é um comportamento humano. O ser humano é apegado a ganhos e avesso a perdas, então materializar uma perda, zerar uma posição perdendo dinheiro, doi muito. Ao mesmo tempo, você se satisfaz muito rápido com ganhos pequenos”, destaca Fábio.

Foi ao aprofundar o estudo de finanças comportamentais que os gestores resolveram explorar esse viés comportamental humano. Assim surgiu o Bracco, que por filosofia se define como um perseguidor de tendências na bolsa, no mercado de juros e de moedas, ou seja, busca manter posições ganhadoras pelo máximo de tempo possível, seja se antecipando nos ganhos seja cortando rapidamente as perdas.

A título de curiosidade, “Bracco”, é uma raça de cão farejador, nome este que faz jus ao objetivo do fundo: “farejar quais ativos estão fazendo break out para surfar e exaurir esta tendência”, como ressalta Fábio.

Conforme acreditam, nenhum ativo sobe indeterminadamente. Um ativo pode mostrar tendência de alta, ter uma pequena realização e então continuar subindo.  Desse modo, se o modelo for exageradamente rigoroso e já na primeira tendência realizar posição, pode acabar por deixar ganhos potenciais na mesa. Por outro lado, se houver muita resistência na realização da posição, o ativo pode acabar revertendo tendência e gerar prejuízos. Justamente para isso incluíram um grande número de modelagens dentro da estratégia, como forma de dividir o risco entre as variações de tendência.

Sabemos que nem sempre os padrões e as variáveis se repetem, especialmente em crises de grandes proporções como é o caso da pandemia do COVID-19. Ressaltado isso, questionei sobre as revisões no modelo com objetivo de entender como ele segue eficaz mesmo em contexto tão diferentes e que possivelmente não tenham sido mapeados previamente à implementação da estratégia.

Victor: Como é feito o processo de manutenção para que não percam a efetividade?

Fábio: Os modelos são agnósticos com relação a variáveis econômicas, ou seja, só olham preço de bolsa, de juros e de moeda em várias janelas de tempo. Com isso, buscam identificar tendências com base nos preços. Porém fazem revisões quando percebem necessidade de mapear algum novo critério, como fizeram ao passar o primeiro drawdown na pandemia, em março de 2020.

Bira: Para todas as posições há stop. Enquanto houver valorização em determinado ativo, o fundo vai surfar esta tendência. Só há saída da posição ganhadora quando o papel não mais cumprir com os critérios a que se propunha ou quando for stopado.

Victor: Controle risco e correlação modelos: como é na prática? Há Backtest que permita identificar geração de alfa sem aumento de correlação no modelo/ direcional em uma única classe?

Fábio: Esta pergunta que é o cerne do quebra-cabeça. O modelo está preparado para captar os seguintes indicadores: retorno potencial da modelagem, volatilidade e drawdown potencial. Idealmente, o modelo isolado é gerador de alfa, ou seja, gera resultado positivo. No entanto, não necessariamente este retorno positivo casa bem com todo o resto da estratégia do fundo. Em todo caso, toda alteração passa por um backtest para verificar o comportamento do ativo isoladamente bem como a interação com os demais da estratégia.

Victor: Sabemos que tesoureiro de banco é uma posição bastante ativa, de muita gestão humana. Normalmente o tesoureiro é o alocador de recursos do banco, é quem toma posição no papel, no índice, monta carteira ou até zera o risco da estrutura societária. Não dá vontade de ir lá e mexer no modelo?

Bira: Sempre que eles estamos mais desconfortáveis com a posição é quando o modelo mais gera um resultado atrativo.

Fundamentalista por tendência

Bira complementa ainda que apesar de não possuir nenhum viés fundamentalista ou macro, é possível identificar a presença dos fundamentos de mercado na carteira do fundo, isto porque, ao perseguirem a tendência de mercado, geralmente os ativos resilientes são aqueles que efetivamente possuem fundamento para tal. O gestor recordou, inclusive, a experiência do fundo ao passar pela crise do COVID em março de 2020, quando o mercado começou a reagir e o modelo passou a alocar risco em ativos do segmento alimentício (supermercados) e e-commerce. Foi aí que perceberam a aderência do modelo à realidade que se apresentava.

Crença na tese de descorrelação

Com as respostas dos gestores, fica evidente a filosofia que rege a gestão do Bracco FIM e a crença na tese de descorrelação. Para eles, a ausência de interferência humana é o diferencial das estratégias quantitativas e sistemáticas, pois ainda que em algum momento a estratégia não consiga expurgar do modelo todo o modismo do comportamento do investidor, pelo menos permite que saiam antes de posições potencialmente mais desafiadoras ou então que aproveitem tendências de alta por mais tempo, visto que dispõe de um arcabouço matemático para isso.

Para finalizar, trago aqui o dicionário Cara a Cara e ressalto a importância de se buscar a menor correlação entre os ativos de uma carteira: lembramos que descorrelação não é buscar um ativo que, por exemplo, sobe 1% e outro que desce 1%, pois aí você está no zero. Descorrelação é buscar ativo que sobe 1% e outro que sobe 0,5% sem que estejam no mesmo sentido o tempo todo. Essa é a graça e genialidade da classe. É isso que gera mais retorno com menos risco.

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